domingo, 19 de fevereiro de 2012

O Gênio da Lâmpada!


(historinha contada por Pe Léo)

                Juvenal era um homem honesto e muito trabalhador. Tinha uma vida simples e boa. Todos gostavam muito do seu jeito simples de viver. Casado com a mulher que amou desde menino, tinha uma casa ajeitada. Seus problemas eram corriqueiros, aqueles que todo mundo tem: algumas dívidas, alguns dissabores, pequenos consertos que a casa exigia, algumas briguinhas com a esposa. No mais, tudo bem.
                Aliás, alguns amigos até comentavam que Juvenal era calmo demais, que ate parecia cego por não perceber o que estava acontecendo bem diante de seus olhos. Alguns até tentavam dar umas indiretas. Mas ninguém tinha coragem de falar abertamente sobre aquele problema terrível que o coitado do Juvenal estava vivendo sem saber.
                Quando o Juvenal chegava ao barzinho perto da empresa onde trabalhava, uma ou outra vez até percebeu uns risinhos estranhos de alguns companheiros, mas como quem não deve não teme... Já que não devia a eles, Juvenal não temia e nem desconfiava de nada. Até o dia que a bomba veio á tona: ele estava sendo traído! E o pior é que o caso da esposa era com o patrão do Juvenal.
                Juvenal era bom, mas não era bobo. Foi pedir satisfações ao patrão. Queria tirar aquela história a limpo. Por pior que seja, a verdade é sempre o melhor remédio. E o patrão confirmou tudo. Era tudo verdade verdadeira! E, como agora Juvenal esta sabendo de tudo, era bom que soubesse também que esse era o único motivo pelo qual continuava trabalhando naquela empresa. Como a coisa foi descoberta, não existia mais nem nenhuma razão para mentê-lo no quadro de funcionários.
                Juvenal foi despedido e humilhado. Seu patrão não fez nenhuma questão de deixar a coisa escondida. O homem estava apaixonado  pela esposa de Juvenal e queria vê-lo longe. Despudoradamente, assumiu tudo, demitiu Juvenal  e ainda fez questão de deixar que a noticia se espalhasse.
O demitido e sofrido Juvenal foi pedir explicações à esposa. Piorou tudo. Ela também admitiu que estivesse apaixonada pelo outro e que agora que tudo tinha sido descoberto não tinha mais motivo para continuar casada com ele.
                No mesmo dia Juvenal perdeu o emprego, a esposa, um monte de amigos, a honra, a dignidade, o bom nome e a coragem de viver. Saiu de casa, passou a perambular pelas ruas. Sua vida estava destruída. Cada dia que passada a dor em seu coração era maior. Ele tinha saído de casa e sido demitido do emprego, mas parecia que nunca sua ex-esposa e seu ex-patrão haviam estado tão presentes em sua vida.
                Ele tinha ido embora de casa e da empresa, mas os dois estavam agora morando de aluguel dentro do coração do Juvenal. Em todo lugar a que chegava parecia que mundo já sabia de sua historia. Tudo o que fazia lembrava a aqueles dois terríveis inimigos, que durante tanto tempo lhe foram tão próximos. A ex-esposa e principalmente o medonho do ex-patrão agora o acompanhavam por toda parte. Aliás, Juvenal nunca falou tanto com a infeliz como agora. Dia e noite ele estava conversando com ela, quer dizer, não era bem uma conversa. Agora ele estava rasgado o verbo e falando tudo que sempre desejou falar. Agora tinha chegado a hora de falar aquelas coisas que estavam entaladas na garganta. Só que nem ela e muito menos ex-patrão estava ali para ouvir o falatório. Juvenal estava falando sozinho. Conversando consigo mesmo. Murmurando.  Ruminando. Moendo e remoendo...
                Quando achava uma sombra agradável para descansar, Juvenal dava um jeito de se deitar, fechava os olhos e começava a assistir àquele filme que carregava no coração. Cada momento de descanso era hora de assistir ao mesmo filme. Ele mesmo tinha dirigido,  produzido e estava divulgando aquele longa-metragem sobre a sua história de sofrimento, adultério, infidelidade, traição e revolta.
                Algumas cenas ganhavam destaque especial. No aparelhinho de vídeo de sua memória, na lembrança ele via e revia a cena mais dolorida. Parava em determinadas cenas e ficava contemplando longamente cada gesto e cada olhar da ex-esposa e do ex-patrão. No filme ele refez toda a sua história, desde o dia em que conheceu aquela menina linda, o primeiro olhar, o primeiro beijo, o dia do casamento, e como foi feliz. Ao menos da parte dele ela nunca teve do que reclamar. Sempre foi um marido honesto, correto, nunca a traiu. Ela é que não soube se comportar, mas por quê? Por que ela fez aquilo com ele? Por que pagar com ódio tanto amor que ele deu a ela?
                E o ex-patrão? Juvenal tinha certeza, e o filme mostrava isso com precisão de detalhes, de que tinha ajudado muito o ex-patrão a ficar rico. Quantas vezes trabalhou até tarde da noite... Talvez naquelas ocasiões o medonho do ex-patrão tivesse aproveitado para seduzir sua ex-esposa tão inocente e honesta. Como é que aquele homem que lhe devia tanta obrigação fora capaz de roubar-lhe a esposa, e com isso roubar-lhe a alegria de viver, a dignidade, a honra, o bom nome? Não era possível que aquele homem tivesse vivido tanto tempo só com o objetivo de prejudicar o coitado do Juvenal.
                O filme com sua história já estava gasto, mas ele não se cansava de assistir-lhe. Mesmo perambulando pelas estradas empoeiradas da região em que vivia, continuava mentalmente a assistir ao filme, fazendo pequenos reparos, acrescentando detalhes importantes. Era preciso que o filme retratasse da maneira mais fiel possível aquela história de infidelidade. O júri também estava montado dentro do coração do Juvenal e aquele longa-metragem, possivelmente com várias continuações... (o retorno, os retornos), precisava retratar a história em seus mínimos detalhes, do contrário haveria risco de os jurados não julgarem a obra com a devida atenção.
                Embora estivesse trabalhando com tanto esmero em sua obra-prima, Juvenal não tinha muito critérios para escolher os jurados de seu filme. Qualquer um que encontrasse pelo caminho era maduro bastante para avaliar o filme. Até mesmo um cachorrinho que passou a acompanhar Juvenal foi designado ao posto de assistente de direção. Com ele Juvenal partilhava tudo. Chorava, tomava umas cachaças, reclamava da ex-mulher e do ex-patrão, assistiam juntos ao filme. O cachorrinho já estava treinado também...
                Quando não estava assistindo ao filme, Juvenal falava sobre o episódio. Quando não tinha com quem falar, pensava e falava sozinho. Dormia, acordava e sonhava com o filme na cabeça e no coração. E cada doa mais ficava impressionado e irritado com a crueldade de seu ex-patrão que lhe roubara a amada esposa.
                Numa dessas andanças pelos bosques da vida, Juvenal encontrou um objeto estranho, brilhante e bonito, parecido com uma chaleira nobre. Como tinha o costume de juntar tudo o que achava pelo caminho, acabou por pegar também aquele estranho objeto.
                Antes de iniciar a tão esperada sessão noturna de exibição do seu filme, Juvenal foi tirar da mochila os objetos que havia encontrado naquele longo dia de caminhada. Foi aí que percebeu que aquela chaleira nobre era uma lâmpada, dessas que escondem os gênios durante milhares de anos. Juvenal estava tão entretido com os pensamentos de sempre que nem percebeu que estava inconscientemente esfregando aquela lâmpada. E não é que o gênio estava ali dentro?
                O gênio saiu feliz da vida por ter sido liberto e, como é de costume nas histórias de gênio e de lâmpada, disse ao Juvenal que ele seria seu mestre , e por isso tinha direito a um pedido.
                - Um pedido? – exclamou Juvenal – eu sempre ouvi falar que eram três? Por que agora essa redução drástica no número de pedidos?
                - Isso eu não sei! – respondeu o gênio, com certa má vontade. Afinal passara muito tempo encolhidinho dentro daquela lâmpada.
                - É pegar ou largar...
                - Bem, posso pedir qualquer coisa?
                - Qualquer uma! É somente um pedido, mas ele pode ser complexo, grande, exagerado... Você pode me pedir o que quiser, saúde, paz, dinheiro, alegria, fortuna... Tudo o que você quiser ou precisar. É só pedir!
                - Tudo o que eu quiser e em qualquer quantidade? Não tem nenhuma condição?
                - Bem, na verdade existe uma Lei Irrevogável que todos nós gênios somos obrigados a cumprir...
                - Eu sabia que não era tão fácil assim. E que Lei Irrevogável é essa?
                - É irrevogável ninguém pode mudá-la.
                - Sim, mas que lei tão importante é essa?
                - É muito simples. Pela Lei Irrevogável dos Gênios da Lâmpada, tudo aquilo que você pedir para você eu sou obrigado a dar em dobro ao seu pior inimigo.
                - Ah, estava bom demais! Quer dizer que tudo o que eu pedir para mim o senhor dará em dobro ao meu ex-patrão?
                - Se ele é o seu pior inimigo, com certeza.
                - Escuta, senhor gênio, ele ficará sabendo que estará ganhando aquilo ás minhas custas?
                - Com certeza! Nós não podemos fazer nada escondido, a não ser ficar morando na lâmpada até que alguém nos liberte. Assim, tudo o que o senhor pedir serei obrigado a dar, em dobro, ao seu ex-patrão, com as saudações em seu nome.
                - Minha nossa! Que lei mais absurda! Ele me prejudicou tanto, me humilhou, roubou minha ex-esposa, me jogou no olho da rua e agora ainda vai se beneficiar ás minhas custas? Isso não é justo!
                - Se é justo ou injusto, eu não sei. Não fui eu quem inventou a lei. Só sei que tenho de obedecer. O que o senhor me pedir eu darei em dobro ao seu ex-patrão.
                Juvenal ficou pensativo. Aquilo tudo era tão novo e tão difícil. Ele tinha a possibilidade de ajeitar a sua vida. Poderia pedir uma fortuna bem grande ao gênio e começar uma vida nova em outro lugar, onde ninguém o conhecesse, talvez até em outro país. Mas o fato de saber que o ex-patrão acabaria lucrando com tudo isso não lhe dava paz. Aquele homem ainda iria rir de sua cara... ele o prejudicara tanto e agora seria beneficiado... O que pedir ao Gênio? Juvenal pediu um prazo até o dia seguinte para pensar bem.
                Se você tivesse a mesma oportunidade do Juvenal, o que pediria ao gênio? Pense um pouquinho só nessa possibilidade.
                Na manhã seguinte, quando o gênio lhe apareceu para realizar seu pedido, Juvenal já tinha tomado a decisão mais importante de sua vida. Não teve nenhuma dúvida em olhar bem nos olhos do gênio e pedir:
                - Quero que o senhor me arranque um olho!
                E você, o que pediria ao gênio?
                Sabe como se chama a força que levou Juvenal a pedir tamanha barbaridade? Não é burrice, não. Chama-se ressentimento.
                Infelizmente, essa mesma força tem levado muita gente a viver como Juvenal. Ele poderia começar uma vida completamente nova. O gênio não podia oferecer a possibilidade de mudar o passado, mas lhe garantia a oportunidade real de construir seu futuro. Ninguém pode mudar seu passado, mas você é a única pessoa que pode edificar seu futuro.
                Alguns fazem até pior do que Juvenal, já que vão pessoalmente arrancar os dois olhos do ex-patrão, ou ao menos rezam todas as noites para que isso lhe aconteça.
                O ressentimento é uma força terrível, encardida e medonha que se aloja em nosso coração, se alimenta da lamúria e da reclamação, se abastece de lembranças dolorosas, se exercita nas brigas, fofocas e divisões; contamina todo o nosso corpo e a nossa alma, se alastra através de nós e nos afasta definitivamente de Deus, pois permite a entrada do Demônio em nosso coração.
                O que é o ressentimento? Qual sua origem? Que artifícios ele usa para se estabelecer em nosso coração? Como percebê-lo agindo em nós? Como encará-lo do ponto de vista bíblico? Como curá-lo?
                São algumas dessas perguntas que tento responder neste livro. Não tenho dúvida de que a cura do ressentimento é uma necessidade absolutamente fundamental  de todos nós. Que estejamos unidos nesta luta.

Texto retirado do livro: A Cura do Ressentimento, Pe Léo, pág 11 á 16.

Moral da história...
O que não permitiu que Juvenal desse certo em sua vida, foi o seu ressentimento. Ele podia ter perdoado seu patrão, e ter tido a sorte de ter algo bom na sua vida.
Não acreditamos em gênio da lâmpada mágica...isto só foi uma historinha para tentar  nos mostrar como somos pecadores, ganânciosos, e como a falta de perdão está presa em nós...
Convido você neste tempo de Quaresma a pensar melhor, e pedir que Jesus vá te mostrando se existe alguém que vc precisa perdoar.
E não deixar que o sol se ponha sobre o ressentimento.

2 comentários:

Alice disse...

Vou pensar nisso

maria do carmo disse...

O perdão é uma coisa maravilhosa e, ao contrario do que muitos pensam, nao é tão dificil assim, basta começar. o dia que voce perdoar vai se sentir tão bem, tão agraciado que vai ver como é facil e fara isso naturalmente.
beijos galera e vamos começar né?